12.11.13

Não, não estamos ricos


Castelo de Montbrun, na França, à venda por 20,5 milhões de euros. Isso sim é imóvel de gente rica.


*Atualização no fim do post.

Eu adoro ser do contra. Quando vi todo mundo compartilhando um novo blog, chamado Tem algo errado ou estamos ricos?, que compara preços de imóveis no Brasil e em outros países, algo não me desceu.

Sim, ninguém nega a arrancada dos preços imobiliários no Brasil e a preocupação que isso acarreta. Eu sei bem, porque me beneficiei dela -- comprei meu apartamento em 2006 por um preço que hoje não vale nem vaga de estacionamento na mesma região. Ainda assim, esse blog me incomoda.

Um dos motivos é porque eu sempre lembro de algo que meu falecido avô, o sábio seu Jacó, sempre dizia: "o importante não é quanto pedem, e sim o quanto pagam". Tem uma casa xexelenta em Fortaleza custando a mesma coisa que uma bonitona em Orlando? Eu pergunto: há quanto tempo essa casa está à venda? Estar à venda por um preço X não significa que alguém vai pagar o que querem, e sim que o dono está disposto a esperar um otário que pague o que ele quer.

Meu pai, no fim da vida, resolveu vender o apartamento dele em uma rua tranquila do Itaim Bibi. Como ele calculou o preço? Pegou o valor do imóvel em dólares, na época que o câmbio era um para um, e converteu para o câmbio da época, que devia ser uns 2 ou 3 para um. E esse era o preço. Sim, ele estava completamente sem noção. Tinha plaquinha e tudo, mostrava para quem quisesse ver, os corretores assediavam, reclamavam que tinham comprador mas o preço era irreal, porém ele não arredava pé. Chegavam a me ligar pedindo para convencê-lo a vender por menos, no que eu respondia: "Olha, por mim ele mantém esse preço mesmo, porque o apartamento é metade meu e eu não vou assinar a venda, então esquece, nem se oferecerem um milhão". Agora com certeza aquele apartamento vale mais de um milhão -- só que se o seu Jovan estivesse vivo talvez estivesse pedindo dois milhões e com certeza o apê estaria no Estamos Ricos? como um exemplo de "OLHA O ABSURDO", talvez comparando com um castelo europeu, sem a informação de que aquilo era um desvario de um sexagenário aposentado meio pancada e que aquele apartamento jamais esteve no mercado para valer.

O mercado imobiliário está cheio dessas histórias. Tanto gente que sobe o preço porque no fundo não quer vender, quando quem coloca abaixo do preço de mercado porque precisa vender logo, resolver pendências judiciais, ou tem históricos pessoais a serem resolvidos. É assim que os negócios são feitos. Para quem está pensando em imóveis no Brasil como investimento, meu filho, esse bonde tu perdeu lá por 2008, mais ou menos.

Outra coisa é um complexo de vira-lata. Olha o caso do apartamento em Nova York versus o do Jardim Botânico: Rua 108 com Broadway é praticamente Harlem, não Upper West Side. Talvez seja perto da Universidade de Columbia, o que melhora um pouco, mas não é uma comparação justa de bairros. Isso é outro defeito do blog: a maior parte dos posts não fala muito sobre localização das ofertas gringas, por exemplo. Parece que só o fato de ser LÁ FORA já faz de um imóvel ser melhor que no do Brasil, mesmo que seja em Nashville, só porque é um subúrbio americano bonitinho -- sem contar que os EUA estão em recessão e os preços de imóveis caíram muito por lá. Em Portugal, então, o povo está vendendo o almoço para pagar o jantar.

Sim, concordo que o apartamento de NY parece ser mil vezes melhor, como os outros classificados de outros posts, mas meu ponto é esse: PARECE. Fica em vantagem quem tira fotos melhores, aquelas que escondem melhor os defeitos, paredes de gesso barato, carpete de madeira vagabundo, etc. Aparentemente nossos corretores e vendedores ainda não aprenderam esse truque.

Eu acho que a gente precisa mesmo ter noção de como os imóveis aumentaram aqui, mas o blog presta um desserviço quando faz essas amostragens sem dar um contexto maior, e nem considera que existem pessoas atrás destes anúncios com as mais diversas motivações. Sem isso, fica o bizarro pelo bizarro, fazendo dele um protesto meio raso, que não esclarece nem ajuda, serve só mesmo para compartilhar a indignação de sempre nas redes sociais.

ATUALIZAÇÃO 13/08/2013: Hoje entrei no Estamos Ricos? e vi dois posts hilariantes: um que compara Malmö, na Suécia, com Osasco ("não é uma mansão, mas é a Suécia!") e um que aí me chamou os brios, comparando São Luís com Bulgária (sem especificar a cidade).  Liguei para a minha búlgara preferida e perguntei o que ela achava da comparação. Minha avó nem pestanejou: "Pago o dobro para morar em São Luís. É tão ruim quanto, mas pelo menos faz não faz frio."

8 comentários:

Leandromet disse...

Concordo que o imóvel vale o quanto o mercado paga, por isso não é fácil vender imóveis usados no Brasil. Apesar de haver casos de pessoas que colocam preços lunáticos, se observar bem mesmo a base de preços praticados é meio lunática...

Em parte porque hoje se consegue financiar imóveis por 35 anos ao passo que alguns anos atrás o máximo eram 15....

Seu exemplo de recessão dos EUA também é muito bom, já que ele está relacionado com a bolha imobiliária que por lá já estourou e que por aqui está em vias de...

Você já vendeu o imóvel que comprou em 2006? Porque daqui a alguns anos ele pode não valer o que se paga hoje. abs

Natasha Madov disse...

Oi Leandro, não vendi porque não consigo comprar outro e aí não adianta nada, eu fico sem casa própria. Eu considero que quando a bolha estourar, se eu conseguir o preço que paguei nele mais o custo da reforma que fiz e mais um lucrinho, já vou achar ok. Se fosse realmente para lucrar, era melhor vender agora mesmo.

Anônimo disse...

Somente ignorantes compram imóveis no Brasil.
A bolha brasileira teve seu início em meados de 2002.
Os imóveis americanos demonstrados pelo site do estamos ricos são sim visivelmente superiores aos pedaços de lixo apresentados na banânia.
Esperto foi aquele que comprou antes e VENDEU.
Quem comprou e NÃO vendeu, é irrelevante ficar dizendo que teve lucro extratosférico, já que lucro é dinheiro no bolso.
Em que pese a quantidade de imbecis ser quase infinita neste país, venda urgentemente o seu, pois a tendência é de que até os retardados mentais começem a verificar o crime que são os preços atuais.
Venda para os idiotas, urgente, antes que a quantidade deles diminua de forma mais drástica.
Talvez se vc vender diminuindo o preço na faixa de 30% ache algum zé ruela que queira pagar.
Pense bem, ano que vem terá que diminuir ainda mais.
O papai aqui já está aguardando sua aposentadoria, e pagando 0,3%am de aluguel para os proprietários imbecis, e sim, pago o "grande rendimento mensal do propriotário" com pequena parcela dos juros que recebo.

Natasha Madov disse...

Obrigada pelo conselho, Anônimo, você não é o primeiro que me diz isso. Mas tou de boa, valeu.

Rubens Kuhl disse...

Estou aqui há quase uma semana num hostel na 107 com Broadway e te digo de andar nas ruas que 108 com Broadway ainda não é Harlem não... não é nem Morningside Heights ainda(começa na 110), que aí sim alguns chamariam de Upper West Side e outros de Harlem.

Eu fui na 155 dar um passeio graças a um endereço errado, e lá é beeem diferente...

Natasha Madov disse...

Faz muito tempo que não ando paraqueles lados, então a região pode realmente ter gentrificado bastante e eu não saber. Ainda assim, tá longe de ter o hype entre os novaiorquinos que o Jardim Botânico tem entre os cariocas. Longe mesmo.

Clar disse...

Nat, excelente.
Fui umas das pessoas que compartilhou o link do blog sem questionar. Revolta inicial, sabe?
Mas de fato, não dá pra compara lé com crê!

Natasha Madov disse...

Não mesmo, Clar!! :)